Os últimos da geração passada cercam-se de epígonos e convencem-se de que as novas gerações concordam consigo. Mas os epígonos são, entre sua geração, os menos talentosos.
Posts de Março, 2008
Epígonos
Março 28, 2008Mínimos trechos do muito que eu já escrevi sobre essa cienciazinha problemática
Março 27, 2008Percebe-se que os momentos de auge da Geografia foram aqueles em que a diferença entre os dois tipos de Geografia (Física e Humana) era conhecido, mas os estudos eram feitos unos. Foi assim em Humboldt e Vidal de La Blache, também em Estrabão e Ptolomeu, assim como na obra de Varenius. Afirmar, portanto, que “acabou a dicotomia entre geografia humana e física”, é advogar um período de declínio, algo antinatural em relação à história da Geografia.
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Um ponto sobre a relação entre a geografia humana e a geografia física: o que temos hoje é que a teorização em geografia é feita por adeptos da geografia humana, e eles não se incomodam em estabelecer objetivos e funções à Geografia que relação alguma têm com a geografia física. O motivo para esse modelo ser aceito com facilidade, porém, já está na problemática quando abordada por Varenius: a Geografia Geral (Física) era dotada de cientificidade, enquanto a Geografia Especial (Humana) era apenas uma curiosidade, por não poder ser generalizada e formar leis. O resultado dessa incapacidade que inspirava a terminologia “especial” em oposição a “geral”, porém, faz com que haja mais a se dizer sobre um determinado lugar pelo aspecto “especial” do que pelo “geral”, pois esse último poderia apenas descrever a morfologia da área, e a explicação da formação dessa morfologia caberia melhor em um trabalho expecífico de Geologia do que em uma tentativa de tratar de um lugar específico. Como há mais o que dizer pelo lado da Geografia Humana, portanto, ela domina o discurso nas obras em conjunto. Não se pode esquecer, porém, que enquanto a parte “humana” parece mais interessante e extensa, sua capacidade científica é sempre mais questionável do que a da parte “física”, constituindo-se assim uma oposição insolúvel, mas em dinâmica constante: um não pode ultrapassar o outro em importância ou negar sua legitimidade.
O afazer intelectual
Março 26, 2008O intelectual percebe os limites de sua inteligência quando os textos de especialistas se contradizem, os fatos parecem negar uns aos outros, e sem mais fontes que essas, ele precisa analisar com mais rigor, refletir mais, chegar a uma conclusão não que outros possam aceitar, mas que ele mesmo reconheça como a verdade. Isso tudo só acontece, porém, caso esse intelectual respeite e deseje a verdade.
Esse momento é angustiante, mas necessariamente porque a verdade mostra-se difícil. Os que hoje são chamados intelectuais e não passam constantemente por isso não são intelectuais de fato, eles participam de um outro fenômeno: o erro das opiniões que têm lhes aparece clarament, causando-lhe um desconforto, um impulso a negar a contradição e salvar suas opiniões. Isso nada tem a ver com a verdade e está muito próximo da salvaguarda do orgulho, do medo da humilhação de reconhecer-se enganado em matéria essencial. Os que se sentem assim e assim agem são marcados não pelo intelecto, mas pelo engodo.
O melhor é que o maior avanço do intelectual verdadeiro está exatamente naquele fenômeno antes descrito, e sem ele ninguém progride nesse campo, pois é ali que, diante da confusão de opiniões e fatos aparentemente contraditórios, ele precisa buscar a resposta na filosofia, na noção essencial da verdade e em seus atributos, na análise lógico-formal dos discursos, na pesquisa mais extensa, na criação de novos conceitos que dissolvam contradições. Tudo isso é o verdadeiro afazer intelectual. O oposto é semelhante em aparência, mas não leva a avanço algum porque prossegue apenas até que se encontre uma mentira propícia a defender o que se deseja defender: é muito mais fácil do que procurar a verdade, exigindo menos esforço, o que leva a retrocessos – e não avanços – cognitivos. Ao final apenas emporcalhando mais o indivíduo.
Achei a citação do Carlos Drummond de Andrade
Março 25, 2008No caderno que eu usava em 2002. Aí vai:
“Entendo que poesia é negócio de grande responsabilidade, e não considero honesto rotular-se de poeta quem apenas verseje por dor-de-cotovelo, falta de dinheiro ou momentânea tomada de contato com as forças líricas do mundo, sem se entregar aos trabalhos cotidianos e secretos da técnica, da leitura, da contemplação e mesmo da ação. Até os poetas se armam, e um poeta desarmado é, mesmo, um ser à merçê de inspirações fáceis, dócil às modas e compromissos”.
Sistemas simbólicos e a excelência poética
Março 25, 2008Quem está acostumado a ler boa poesia percebe claramente quando uma letra de música é péssima. Aconteceu hoje comigo. É bastante óbvio que a grande diferença é que não há, na letra de música, a reflexão apurada acerca de cada detalhe da forma da linguagem utilizada, dos símbolos e tudo o mais, de modo que o resultado é geralmente piegas. As exceções, é claro, são bastante notáveis, mas não saem muito do nível da poesia popular. Como escreve o Alexei Bueno em sua famosa carta aos jovens poetas, basta ler a letra sem ouvir a música que a pobreza fica aparente.
O que eu percebi hoje, quando ouvi a tal música, é que boa parte do problema está nos símbolos utilizados pelos letristas. Símbolos, digo, no sentido da semiologia. Pense naqueles dicionários semiológicos gigantes. Pois bem, aquilo. O letrista acredita que escreve “livremente”, mas na verdade o que ele fez é se manter no âmbito dos símbolos mais óbvios e surrados, o que dá o aspecto piegas. Se as agendas colocassem mini-dicionários semiológicos ao lado das bandeiras e capitais de países, os símbolos todos que esses caras usam já caberiam ali. Os caras pensam com base nesse universo simbólico limitado, e não é escrevendo “livremente” que conseguirão libertar-se dele: a improvisaçaõ está sempre no nível do costumaz, e não da excelência, e por isso jazz é uma porcaria. Mas isso não tem importância porque ninguém que se preze se importa com letra de música popular nem com jazz (isso não inclui o punhado de obras da música clássica inspiradas no jazz, de gente como Stravinsky e Shostakovich, porque como influência vagamente estética qualquer besteira serve para influenciar a música clássica; em uma conversa, o Mahler disse que “compôs” uma montanha). De qualquer modo, o importante é compreender a relação que isso tem com a poesia de verdade.
O caso é o seguinte: a habilidade em um campo qualquer é algo como uma total experiência: Pelé jogava muito bem porque treinava muito, e assim o que era difícil se tornava fácil. O talento ajuda a chegar a esse nível. Estuda-se isso na Psicologia Cognitiva sob o termo “expertise” e isso você pode ler ali, os gênios praticam mais tempo do que os outros praticantes de seja lá o que for que eles fazem. Exemplo mais dentro do contexto, é assim que alguém como o Bocage podia simplesmente ditar um soneto, inventando na hora. Rimar uma epopéia inteira parece muito mais difícil se você jamais escreveu 5 páginas de versos, ou verso nenhum; lá pelas tantas, Dante e Camões se acostumaram e tudo ficou mais fácil. Com todos esses exemplos, pense em como isso se dá em relação ao uso dos símbolos. O sujeito está muito satisfeito pensando o mundo por uma série de símbolos básicos, ele movimenta-se bem neles, usa-os em conversas informais e quando compõe sem pensar muito no que faz. O semiólogo acostumado a lidar com os símbolos mais raros dado momento irá dominá-los bem, de modo que você ouve o que ele diz e talvez não entenda nada, porque agora já se tornou normal.
Mas e o grande poeta? O interessante do grande poeta é que ele não domina os símbolos todos que existem e podem ser estudados e tudo o mais: ele criou seu próprio sistema símbolico, dominou-o por completo, acostumou-se a comprender o mundo (e o homem, e si mesmo, e a verdade, o amor ou tudo o mais que seja matéria de poesia) utilizando aqueles símbolos e utiliza-os para fazer boa poesia, frisando-se que – aqui vem o mais importante – boa parte do “boa” dessa poesia é exatamente o quão interessante é esse sistema simbólico. Se há algum poeta lendo isso: você precisa refletir sobre os símbolos que você utiliza no seu dia-a-dia, nos seus pensamentos costumeiros, porque se você senta para escrever um poema e tenta forçar os símbolos que lhe parecem poéticos, o resultado será o do homem sem educação que tenta falar bonito, e o poema ficará vergonhosamente ruim. Mas eu sou cético quanto a poetas contemporâneos que leiam, então melhor será destinar isso tudo aos críticos: criticar a obra de um poeta não é dizer o que você achou, é em grande parte investigar o universo simbólico dos poemas a fundo, compreender as relações intrínsecas daquilo, o significado que ele tem em si, sem poema nenhum; uma vez havendo estudado e compreendido muito bem esse universo simbólico, aí você lê os poemas e vê se o uso foi proveitoso. Um dos melhores tipos de crítica literária útil ao escritor que se pode fazer é decorrente de quando o crítico percebe que aquele universo simbólico poderia ter sido expressado melhor e é capaz de explicar por que. Mas eu sou cético quanto a críticos contemporâneos que possam escrever algo útil, então é melhor dar mais um exemplo interessante e ir dormir:
Tudo isso que eu escrevi, principalmente a parte da crítica, advém de uma única frase que eu li naquele meu velho caderno dos posts anteriores, junto com as do Schoenberg, e que ficou dando voltas na minha cabeça até que hoje à tarde eu ouvisse a tal da música popular imbecil. A frase é de um tal de Curtius, sei lá quem, sobre Proust: “A verdadeira crítica tende a descobrir os elementos formais da alma de um autor, e não suas opiniões, nem seus sentimentos”; de fato, a essência da crítica está na reflexão sobre essa “alma” que é o sistema de referências simbólicas do autor, provavelmente o mais sublime depositário de suas opiniões e visão de mundo.
E acaba que, agora eu eu voltei ao caderno para anotar a frase, dei com outra, do Machado de Assis, que tem muito a ver com isso: “Por muitos anos procurei-me a mim mesmo. Achei. Agora não me digam que ando à procura de originalidade, porque já descobri onde ela estava, pertence-me, é minha”. E ainda outra frase relacionada, estou sentindo como se tivesse começado a escrever esse post em 2003. Essa é de um tal de Middleton Murry (vejam quanta sinceridade, eu poderia muito bem pesquisar agora na Internet e me portar como se soubesse quem esse cara é, para parecer mais inteligente): “Try to be precise and you are bound to be metaphorical”. De fato, tentar ser preciso é forçar os limites da concisão simbólica, é procurar um símbolo apenas que signifique uma pluralidade: se você faz isso e ao final chega a um símbolo seu, personalíssimo, e interessante, e põe isso em versos, o resultado tende a ser bom.
Eu ainda ia citar um negócio do Drummond, mas não estou achando o livro. Peraí, achei. Não achei não, não tem nesse livro, eu achava que tinha. O caso é que o Drummond diz que não gosta de poetas que só escrevem nas horas vagas, no fim de semana, porque para ser poeta, diz ele, tem que trabalhar, alguma coisa assim. É verdade, quem não trabalha não consegue criar um sistema simbólico interessante, porque isso envolve dominar muito bem os símbolos banais a ponto de compreendê-los transcendentalmente (o que envolve muita leitura pesada, refletida) e, em seguida, encontrar para as suas essências símbolos nominais outros que as exprimam belamente, mas sem perder a precisão, embora possam perder a clareza; o diletante também não consegue ver-se muito confortável em um exótico e sofisticado sistema simbólico autóctone, porque isso envolve a prática constante da compreensão e reelaboração do mundo nos termos desses símbolos novos, o que exige dedicação total a essa visão de mundo diferenciada: não dá para andar por aí vivendo normalmente, a reflexão poética precisa tornar-se parte do dia-a-dia, da compreensão mesma do mundo. Algo muito semelhante ocorre na Filosofia e na vida religiosa.
Frases do Schoenberg e tudo o mais que, depois de lê-las, não consegui deixar de escrever
Março 24, 2008Algumas frases do Schoenberg que eu encontrei naquele caderno.
“Mas o tempo cura todas as feridas, mesmo aquelas abertas pelas harmonias dissonantes”
Acusaram-no de compôr como um intelectual. Resposta: “Eu prefiro compôr como um intelectual a fazê-lo como um imbecil”
“Se é arte, não é para as massas, e se é para as massas, não é arte”
“E estou certo de que nunca poderia ter adquirido a técnica e o poder estético que desenvolvi se tivesse dispendido qualquer espaço de tempo com política” {no contexto do livro, marcava a oposição de Schoenberg à postura de um de seus alunos, um imbecil, que dissera: “Porque a música burguesa não é – como se acredita – universal, e sim a arte de uma classe dominante”}.
“Um dia o povo ainda assobiará a música fina que fabrico” {já é madrugada; daqui a pouco vou colocar alguma coisa do Schoenberg no meu aparelho de mp3, acender um cigarro, e tentar assobiar esse negócio}
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Tudo o que há de interessante em Schoenberg é como ele respondeu ao impasse estético de seu tempo. E isso não significa que a resposta seja boa, mas sim que ela é interessante, e com isso eu quero dizer que o mecanismo da reflexão que levou à resposta só pode ter algo de perene, algo que, uma vez compreendido, pode levar a avanços em outras artes. Uma das coisas estúpidas que eu fiz na minha vida foi tentar discutir esse assunto no orkut, na comunidade do Schoenberg. Foi bem na época em que as pessoas começaram a se inscrever no orkut, eu não sabia 1) que aquilo não presta para discussões, nem 2) que as comunidades em inglês estão repletas de brasileiros e não se espera que as pessoas ali discutam em inglês. Resultado: uma discussão imbecil, em inglês, com uma mulher que nem entendeu o que eu estava escrevendo. Está lá até hoje, eu tenho pena de apagar.
Mas, enfim, a idéia era que, no século XX, a ordem a da evolução das artes sofreu algumas distorções. Nietzsche escreveu que a música está sempre esteticamente atrasada em relação às outras artes, pois o ouvido demoraria mais a se acostumar com as novidades. Isso era verdade até a época dele, mas, mesmo assim, apenas no sentido da percepção estética, que segue com as dinâmicas costumeiras, mas desde Tristão e Isolda, do Wagner, a estética da música no sentido da técnica de composição deu um salto que hoje está bem compreendido na música, mas que me intriga na sua relação com as outras artes. O cromatismo de Wagner é fruto de uma compreensão lógica e matemática da limitação a que se chegou nas inovações musicais dentro do sistema tonal. O próprio cromatismo teve sua saturação na própria obra de Wagner, exigindo a resposta de Schoenberg: primeiro o atonalismo, em que o resto do século seguiu, depois o dodecafonismo, uma tentativa de colocar ordem no atonalismo. O resultado foi música muito estranha no sentido da percepção estética, mas muito interessante no sentido da estética da técnica de composição: por causa dessa rápida e fácil evolução, baseada na exploração lógica das limitações dos sistemas de harmonização de sons, a percepção estética ficou em segundo plano, simplesmente acompanhou os avanços do campo técnico: a música deixou de estar atrasada em relação às outras artes, como Nietzsche dissera, e aconteceu o oposto: esse estranho avanço estético não ocorreu, me parece, em outra arte nenhuma. Há vários exemplos que “parecem” ser a mesma coisa, por exemplo, pensei agora no Pollock, mas não acho que seja exatamente isso, e mesmo que fosse, o que mais me interessa é o que toca à literatura.
Assim, de algum modo a essência da resposta que Schoenberg deu deveria ser repetida na evolução das outras artes. No caso que me interessa, essa aplicação à literatura levaria a uma nova forma, que substituiria o romance (cuja potencialidade de inovação esgotou-se, à maneira do sistema tonal, com as obras de Proust, Joyce e Kafka, o que envolve toda uma outra argumentação). E isso porque para a prosa eu ainda tenho uma idéia ou outra, enquanto o caso da poesia me deixa totalmente intrigado (chave: Ezra Pound, principalmente). Na minha época do colégio eu tinha em meu caderno algumas páginas reservadas a “idéias para a renovação da poesia”. Jamais escrevi nada ali.
Agora vem o gancho. Há uma frase do Schoenberg que eu omiti, mas que não estava escrita no caderno e eu lembro apenas de cabeça: “Há ainda muita música a se compôr na escala de dó maior”.
E ainda outro gancho. Há muitos anos eu costumo dar menos importância ao Stravinsky porque a resposta dele a todo o impasse seria bem mais grosseira que as de Wagner e Schoenberg. Mas o que ele fez depois de toda aquela barulheira dos balés foi investir em um tipo de retorno à religiosidade na música, como um modo de criar uma síntese superior a todos os aparentes conflitos. Isso é muito, muito mais sofisticado do que a dinâmica do cromatismo ao dodecafonismo, porque investe na parte da percepção estética, que foi deixada de lado e levou a música por vezes demasiadamente intragável (nem precisaria dar exemplos, todo mundo tende mesmo a concordar nisso, mas alguns de meus exemplos favoritos dos limites do inaudível são o “Poema Sinfônico para Mil Metrônomos”, do Ligeti, o “Quarteto para Helicópteros”, do Stockhausen, e as sonatas para piano de 1 a 3, do Boulez).
Mais um gancho. Seria sacanagem terminar essa coisa toda sem citar pelo menos de passagem o Béla Bartók, que fez gato e sapato com os sistemas tonais e atonais, mas sempre a uma boa distância do inaudível, fazendo música nova, interessante e boa de ouvir fumando um cigarro.
Em frontispício
Março 23, 2008Bom dia, senhores, a vida segue.
Provavelmente vez ou outra escreverei algo diretamente nesta mesma janela, para o próprio blog, mas pelo menos de início parece-me que a maior parte dos posts será de cópias de textos que escrevi em algum momento outro de minha vida. Meus interesses são vários, então esse blog deverá ser muito varioso. A idéia é algo como um blog polímata.
Eu, que, há três dias atrás, disse ao Antônio que blog era coisa de gente que escreve sobre atualidades, sobre filmes a que assistiu e tal, intelectuais de segunda categoria, e lhe recomendei que escrevesse aquelas coisas em um livro. Bom, livro hoje dá muito trabalho, e ele inteligentemente retrucou que a direita brasileira está toda na Internet. Realmente, fez muito sentido, e seria estúpido não mudar de idéia.