O afazer intelectual

By tsilvaalmeida

O intelectual percebe os limites de sua inteligência quando os textos de especialistas se contradizem, os fatos parecem negar uns aos outros, e sem mais fontes que essas, ele precisa analisar com mais rigor, refletir mais, chegar a uma conclusão não que outros possam aceitar, mas que ele mesmo reconheça como a verdade. Isso tudo só acontece, porém, caso esse intelectual respeite e deseje a verdade.

Esse momento é angustiante, mas necessariamente porque a verdade mostra-se difícil. Os que hoje são chamados intelectuais e não passam constantemente por isso não são intelectuais de fato, eles participam de um outro fenômeno: o erro das opiniões que têm lhes aparece clarament, causando-lhe um desconforto, um impulso a negar a contradição e salvar suas opiniões. Isso nada tem a ver com a verdade e está muito próximo da salvaguarda do orgulho, do medo da humilhação de reconhecer-se enganado em matéria essencial. Os que se sentem assim e assim agem são marcados não pelo intelecto, mas pelo engodo.

O melhor é que o maior avanço do intelectual verdadeiro está exatamente naquele fenômeno antes descrito, e sem ele ninguém progride nesse campo, pois é ali que, diante da confusão de opiniões e fatos aparentemente contraditórios, ele precisa buscar a resposta na filosofia, na noção essencial da verdade e em seus atributos, na análise lógico-formal dos discursos, na pesquisa mais extensa, na criação de novos conceitos que dissolvam contradições. Tudo isso é o verdadeiro afazer intelectual. O oposto é semelhante em aparência, mas não leva a avanço algum porque prossegue apenas até que se encontre uma mentira propícia a defender o que se deseja defender: é muito mais fácil do que procurar a verdade, exigindo menos esforço, o que leva a retrocessos – e não avanços – cognitivos. Ao final apenas emporcalhando mais o indivíduo.

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