Alguns apontamentos sobre a linguagem

By tsilvaalmeida

*Escrevi isso há pelo menos um ano. Lembro que por algum motivo a questão da linguagem me atraiu e percebi que esses apontamentos se perderiam na minha memória caso não os colocasse no papel. Não há, porém, utilidade alguma para qualquer um deles. Eu costumo não me importar com essas coisas, deixo-me esquecê-las livremente, mas por algum motivo eu quis salvar essas idéias. Não sei se valeu a pena, mas esse blog está parado há tanto tempo que eu fiquei satisfeito de encontrar algo já digitado e, de certo modo, digno de publicação. Desde então eu adicionaria algumas idéias sobre a linguagem em Shakespeare, pois estive lendo Shakespeare’s Language, do Frank Kermode, mas isso exigiria muito mais do que copiar e colar. E as idéias sobre Shakespeare inserem-se no contexto bem mais vasto e complexo das idéias sobre a grandeza em Literatura; não tenho cabeça para isso agora.*
De como certas expressões de determinadas línguas inexistem em outras, e da falta que fazem à clareza da expressão. Alguns exemplos:
• Três expressões, duas da língua inglesa, americana e inglesa, e outra do português brasileiro: “caught red handed”, “caught with a smoking gun” e “pego com a boca na butija”. A primeira, de um país antigo, expressa um crime com lâmina, que suja a mão do ofensor com sangue; a segunda, crime de arma de fogo, do país que há muito especializou-se em armas modernas; a terceira, porém, de natureza muito diferente, representa o roubo de comida, em um país com histórico de desigualdade social e pobreza. Eu não sei como isso poderia ser explorado para algo interessante. Li pela primeira vez em uma coluna do Roberto Pompeu de Toledo, na Veja; dá para encontrar a referência pela Internet.
• A tradução do título do livro de Ezra Pound, entre Cantos ou Cantares, esse último indicado pelo autor como mais adequado pela ligação com “cantares” rústicos, mas é discutível se esse termo realmente guarda a genealogia que Pound pretendia, ao contrário do possível original em sua língua (é possível que Pound nem mesmo se referisse ao italiano).
• Algumas expressões do inglês cuja mera compreensão por falantes de outras línguas, notadamente do português brasileiro, já contribuiria significativamente às discussões:
o “arguably”, algo como “argumentavelmente”, que embora tenha tradução razoável para o português, é muito raramente utilizada no nosso discurso. O interessante no “arguably” é que ele voluntariamente exprime incerteza por parte do falante, e não sua incerteza, mas incerteza do assunto. Significa que o falante considera o assunto incerto e assim pretende expressá-lo porque reconhece que não há solução. Pela falta de expressão semelhante, o discurso brasileiro opta: pela afirmação de certeza, mesmo que infundada, o que por sua vez leva a discussões inúteis; pela invenção de uma controvérsia, o que leva à vagueza deselegante da expressão, quando se escreve “há quem diga que”, “alguns defendem que” (há um nome para isso, que para os americanos é depreciativa); por fim, leva também
o “educated fool”, que expressa a desconfiança dos americanos à suficiência da educação formal sem a sabedoria. Não conheço a origem, talvez seja em um blues antigo que reza: “you can go to your college, you can go to your school, but if you don’t have Jesus you’re an educated fool”. Contrasta diretamente com a servilidade dos brasileiros frente à educação formal, que termina por confundir o título educacional com o próprio poder, no tratamento de qualquer autoridade por “doutor”. Não há por que não acreditar que a raiz desse pensamento não está também na incompetência acadêmica do brasileiro, para quem as honras acadêmicas parecem ser suficientes, mesmo que frágeis em sua seriedade e acompanhadas de atitudes pouco honradas. O próprio termo “fool”, usado como xingamento corriqueiro entre os americanos, substitui com mais seriedade um “idiota” ou “imbecil”, enquanto o termo “tolo” dificilmente é utilizado pelo brasileiro senão como sinônimo de ingenuidade ou tratando-se de alguém mimado, enquanto o termo originalmente opõe-se a “sábio”, e não a “ingênuo” ou “experiente”.
o Outro caso interessante é o de “spoiled”, “estragado”, usado com o significado de “mimado”, claramente um termo mais incisivo.
o Interessante também como a cultura da internet, com sua predominância do inglês, rapidamente gera novos termos e expressões com significados muito incisivos que não chegam ao português e assim, também rapidamente, cria um defasagem claramente de agilidade da língua e compreensão de discursos estrangeiros que não são necessariamente “da língua”, mas conseguem tornar-se gírias muito populares devido mesmo ao nível tecnológico de uma sociedade que consegue inserir-se em massa em conjuntos de discursos que nào estão disponíveis a outras sociedades tanto pela barreira costumeira da língua quanto pela nova barreira tecnológica. Alguns casos: LMAO, troll. Há também o caso de termos costumeiros que não são compreendidos em sua correta acepção quando apenas ouvidos devido à sua forma diferenciada de apresentação no contexto inicial; a confusão pode advir de se ouvir o termo em um filme ou em uma canção, por exemplo. Um exemplo, “delicious”, que não se refere claramente ao site del.icio.us, e muitos outros exemplos são possíveis.

Pois bem, algo que parece interessante nesse tipo de coisa é a necessidade de um tradutor explicar-se a todo momento em suas conversões, e no tanto de explicações que seriam necessárias para que o leitor conseguisse anular de alguma forma em sua compreensão a máxima do “tradutor traidor” (talvez Heidegger tenha tentado algo semelhante com suas traduções “malucas”). Também, sobre o leitor de uma tradução que conhece a língua original do texto, embora não o bastante para lê-lo diretamente do original. O caso é: haveria um mínimo de conhecimento de outras línguas para que qualquer texto pudesse, com tradução adequada, ser completamente compreendido? Qual seria esse mínimo? Tal pensamento daria vazão a interessantes traduções, mais didáticas, compreensivas, competentes e complexas. Um indivíduo poderia receber essa educação mínima em dezenas de línguas com relativa facilidade. Poligotas agem de maneira semelhante, conhecendo muitas línguas e revisando o que sabem quando precisam utilizá-las. Há então o caso da tradução como a do meu livro de poemas do Goethe: tradução literal para o inglês e original alemão. Não é o caso de serem essas traduções as mais adequadas para o leitor que tem mínimo conhecimento da língua original? Coisas assim.

*Acabo de perceber que comecei esse último parágrafo querendo escrever algo específico mas enrolei, enrolei, e não disse, embora seja realmente algo muito simples: é muito interessante ler as introduções escritas por tradutores, justificando suas escolhas e posicionando-se na velha questão do ‘traduttore traditore’. Anteontem mesmo eu li um prefácio escrito pelo Sérgio Buarque de Hollanda a respeito de uma tradução do Fausto lançada em 1945 (ou 49, não tenho mais certeza). O trecho era muito interessante, o Buarque de Hollanda se colocando no lugar do Goethe para saber se ele aprovaria as escolhas da tradutora e tal. Não me lembro de jamais ter me entediado lendo um prefácio de tradutor, mas muita gente aparentemente pula. Eu recomendo muito a leitura, aprende-se muito sobre as obras e os autores.*

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