O veneno consome tuas forças
primeiro, pelas beiradas,
mastiga as pontas de teu corpo.
De início, rói tuas unhas.
Julga-lo fazer-te um favor.
Come teus cabelos, não mais o levas para ser cortado
e nas quentes tardes de domingo
quando nada tens para fazer
entregue ao ócio, à preguiça,
ao abandono de tuas obrigações mais primárias,
vez em quando percebes que dependes do veneno,
levemente posto sobre cama,
depois desmaias sobre o prato de comida
enquanto tentavas jantar.
No dia seguinte, todos te percebem fraco.
Teu corte de cabelo deu lugar à calvície,
o couro cabeludo ressequido e ralo;
sem tuas unhas, as pontas de teus dedos
são macios e sensíveis tentáculos de carne.
Não passaste perfume, esqueceste o desodorante
mas de ti não sai o cheiro do suor, o teu cheiro,
porém o odor acre do veneno,
que já está por dentro de ti,
fazendo as vezes de teus órgãos,
o pulso do veneno é um em cada três
dos pulsos de teus sinais vitais.
Defendes tuas vidas, tuas idéias,
para que todos se afastem,
até que, sozinho com o veneno,
conversas sozinho,
andando de quatro pelo corredor,
procurando teu quarto,
perdido em tua casa
que conhecias em perdidas memórias.
Mas o veneno não te mata.
O veneno te engravida, e de ti nasce outro
até que na manhã seguinte estejas morto,
mas vivo porque o filho do veneno és tu mesmo,
renascido outro, com novas idéias e uma nova religião
da qual és não-praticante.
És hoje os restos do que fostes,
aquecidos pelo hálito do veneno,
a quem, portanto, deves tua vida.
Homem do vveneno, encontrarás mulheres do veneno,
todas, como tu, novas criaturas
desprovidas de natureza humana –
que teus filhos, já nascidos no veneno,
jamais conhecerão,
senão escondida e amputada,
tatuada com sinais falsos,
cicatrizada onde fora mais bela,
amarelada na pele do rosto,
esquizofrênica, julgando-se contradição
no produto final da conta confusa
no caos da estética revolucionária,
sem sentido da vida,
que se tornaram suas almas.
Se o vento sopra, não o sentes
senão como desconforto no estômago:
uma pequena gastrite de origem somática.
O sol é uma ardência,
a lua é brilhante demais para teu olho,
que não mais se dilata ou se contrai.
O toque da areia em teus pés não é nada.
E na mais horrível condição humaana,
vivendo das mentiras do veneno,
pensando as obviedades do veneno,
dizendo as palavras tolas do veneno,
ignorando o limitado e o ilimitado,
pois conhecendo de tudo apenas a parte,
que a tomas pelo todo,
com o coração emporcalhado de pecados,
havendo-os cometido todos,
conhecendo todas as impurezas,
responsável pela corrupção das almas de todos que conheceste,
ignorando o essencial e idolatrando os detritos imundos,
havendo abandonado tudo o que de bom teus pais te ensinaram,
e todos os bons exemplos de honra na história da humaniddade,
sentes-te culpado pelo dinheiro que tens,
julgando-te, tristemente, um felizardo.
Se algo pensas de bom, não o dizes;
se planejas algo concreto, não o realizas;
se te apaixonas, não te apaixonas;
enfim apenas te resta o suicídio,
que, de fatoo, te foi oficialmente recomendado,
como apoio às políticas do governo.
E assim morres, abandonando os sonhos,
jamais teus,
porém dos homens passados que te criaram.
O veneno foi tua ruína,
mas o defendes, contra Deus,
durante teu julgamento último,
pedindo uma nova encarnação,
para que vejas o progresso.
Mas não há reencarnação,
não há progresso – o próprio mundo é findo;
há apenas tua alma,
escondida no Inferno.