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Carpeaux sobre Goethe

Abril 19, 2009

Demorei para compreender o que Carpeaux escreve sobre Goethe no início da parte VIII de História da Literatura Ocidental, “Literatura Burguesa”. Segue o trecho:

“No dia 2 de agosto de 1830, Eckerman anotou no seu diário:
<< Hoje chegou em Weimar a notícia da Revolução de Julho, e todo mundo se assustou. Na tarde, visitei Goethe. – que pensa desse grande movimento?

Dizia ele logo: – << O vulcão e”

enfim… deu preguiça de copiar. Vá buscar da sua edição.

O interessante é que. Ah… perdi a vontade de escrever também.

Sistemas simbólicos e a excelência poética

Março 25, 2008

Quem está acostumado a ler boa poesia percebe claramente quando uma letra de música é péssima. Aconteceu hoje comigo. É bastante óbvio que a grande diferença é que não há, na letra de música, a reflexão apurada acerca de cada detalhe da forma da linguagem utilizada, dos símbolos e tudo o mais, de modo que o resultado é geralmente piegas. As exceções, é claro, são bastante notáveis, mas não saem muito do nível da poesia popular. Como escreve o Alexei Bueno em sua famosa carta aos jovens poetas, basta ler a letra sem ouvir a música que a pobreza fica aparente.

O que eu percebi hoje, quando ouvi a tal música, é que boa parte do problema está nos símbolos utilizados pelos letristas. Símbolos, digo, no sentido da semiologia. Pense naqueles dicionários semiológicos gigantes. Pois bem, aquilo. O letrista acredita que escreve “livremente”, mas na verdade o que ele fez é se manter no âmbito dos símbolos mais óbvios e surrados, o que dá o aspecto piegas. Se as agendas colocassem mini-dicionários semiológicos ao lado das bandeiras e capitais de países, os símbolos todos que esses caras usam já caberiam ali. Os caras pensam com base nesse universo simbólico limitado, e não é escrevendo “livremente” que conseguirão libertar-se dele: a improvisaçaõ está sempre no nível do costumaz, e não da excelência, e por isso jazz é uma porcaria. Mas isso não tem importância porque ninguém que se preze se importa com letra de música popular nem com jazz (isso não inclui o punhado de obras da música clássica inspiradas no jazz, de gente como Stravinsky e Shostakovich, porque como influência vagamente estética qualquer besteira serve para influenciar a música clássica; em uma conversa, o Mahler disse que “compôs” uma montanha). De qualquer modo, o importante é compreender a relação que isso tem com a poesia de verdade.

O caso é o seguinte: a habilidade em um campo qualquer é algo como uma total experiência: Pelé jogava muito bem porque treinava muito, e assim o que era difícil se tornava fácil. O talento ajuda a chegar a esse nível. Estuda-se isso na Psicologia Cognitiva sob o termo “expertise” e isso você pode ler ali, os gênios praticam mais tempo do que os outros praticantes de seja lá o que for que eles fazem. Exemplo mais dentro do contexto, é assim que alguém como o Bocage podia simplesmente ditar um soneto, inventando na hora. Rimar uma epopéia inteira parece muito mais difícil se você jamais escreveu 5 páginas de versos, ou verso nenhum; lá pelas tantas, Dante e Camões se acostumaram e tudo ficou mais fácil. Com todos esses exemplos, pense em como isso se dá em relação ao uso dos símbolos. O sujeito está muito satisfeito pensando o mundo por uma série de símbolos básicos, ele movimenta-se bem neles, usa-os em conversas informais e quando compõe sem pensar muito no que faz. O semiólogo acostumado a lidar com os símbolos mais raros dado momento irá dominá-los bem, de modo que você ouve o que ele diz e talvez não entenda nada, porque agora já se tornou normal.

Mas e o grande poeta? O interessante do grande poeta é que ele não domina os símbolos todos que existem e podem ser estudados e tudo o mais: ele criou seu próprio sistema símbolico, dominou-o por completo, acostumou-se a comprender o mundo (e o homem, e si mesmo, e a verdade, o amor ou tudo o mais que seja matéria de poesia) utilizando aqueles símbolos e utiliza-os para fazer boa poesia, frisando-se que – aqui vem o mais importante – boa parte do “boa” dessa poesia é exatamente o quão interessante é esse sistema simbólico. Se há algum poeta lendo isso: você precisa refletir sobre os símbolos que você utiliza no seu dia-a-dia, nos seus pensamentos costumeiros, porque se você senta para escrever um poema e tenta forçar os símbolos que lhe parecem poéticos, o resultado será o do homem sem educação que tenta falar bonito, e o poema ficará vergonhosamente ruim. Mas eu sou cético quanto a poetas contemporâneos que leiam, então melhor será destinar isso tudo aos críticos: criticar a obra de um poeta não é dizer o que você achou, é em grande parte investigar o universo simbólico dos poemas a fundo, compreender as relações intrínsecas daquilo, o significado que ele tem em si, sem poema nenhum; uma vez havendo estudado e compreendido muito bem esse universo simbólico, aí você lê os poemas e vê se o uso foi proveitoso. Um dos melhores tipos de crítica literária útil ao escritor que se pode fazer é decorrente de quando o crítico percebe que aquele universo simbólico poderia ter sido expressado melhor e é capaz de explicar por que. Mas eu sou cético quanto a críticos contemporâneos que possam escrever algo útil, então é melhor dar mais um exemplo interessante e ir dormir:

Tudo isso que eu escrevi, principalmente a parte da crítica, advém de uma única frase que eu li naquele meu velho caderno dos posts anteriores, junto com as do Schoenberg, e que ficou dando voltas na minha cabeça até que hoje à tarde eu ouvisse a tal da música popular imbecil. A frase é de um tal de Curtius, sei lá quem, sobre Proust: “A verdadeira crítica tende a descobrir os elementos formais da alma de um autor, e não suas opiniões, nem seus sentimentos”; de fato, a essência da crítica está na reflexão sobre essa “alma” que é o sistema de referências simbólicas do autor, provavelmente o mais sublime depositário de suas opiniões e visão de mundo.

E acaba que, agora eu eu voltei ao caderno para anotar a frase, dei com outra, do Machado de Assis, que tem muito a ver com isso: “Por muitos anos procurei-me a mim mesmo. Achei. Agora não me digam que ando à procura de originalidade, porque já descobri onde ela estava, pertence-me, é minha”. E ainda outra frase relacionada, estou sentindo como se tivesse começado a escrever esse post em 2003. Essa é de um tal de Middleton Murry (vejam quanta sinceridade, eu poderia muito bem pesquisar agora na Internet e me portar como se soubesse quem esse cara é, para parecer mais inteligente): “Try to be precise and you are bound to be metaphorical”. De fato, tentar ser preciso é forçar os limites da concisão simbólica, é procurar um símbolo apenas que signifique uma pluralidade: se você faz isso e ao final chega a um símbolo seu, personalíssimo, e interessante, e põe isso em versos, o resultado tende a ser bom.

Eu ainda ia citar um negócio do Drummond, mas não estou achando o livro. Peraí, achei. Não achei não, não tem nesse livro, eu achava que tinha. O caso é que o Drummond diz que não gosta de poetas que só escrevem nas horas vagas, no fim de semana, porque para ser poeta, diz ele, tem que trabalhar, alguma coisa assim. É verdade, quem não trabalha não consegue criar um sistema simbólico interessante, porque isso envolve dominar muito bem os símbolos banais a ponto de compreendê-los transcendentalmente (o que envolve muita leitura pesada, refletida) e, em seguida, encontrar para as suas essências símbolos nominais outros que as exprimam belamente, mas sem perder a precisão, embora possam perder a clareza; o diletante também não consegue ver-se muito confortável em um exótico e sofisticado sistema simbólico autóctone, porque isso envolve a prática constante da compreensão e reelaboração do mundo nos termos desses símbolos novos, o que exige dedicação total a essa visão de mundo diferenciada: não dá para andar por aí vivendo normalmente, a reflexão poética precisa tornar-se parte do dia-a-dia, da compreensão mesma do mundo. Algo muito semelhante ocorre na Filosofia e na vida religiosa.