Arquivo da categoria ‘História do Patíbulo Social’

E as considerações posteriores

Março 24, 2008

Terminei o conto do post anterior em 22/09/03 . É interessante justapôr o que escrevi então, logo em seguida ao que escrevi um mês antes.

Mais uma vez acaba o projeto com poucas páginas, apesar de conter acontecimentos o bastante para um romance. De alguma forma me parece que isso está muito, muito correto e bem-vindo, algo como uma maneira artística de se fazer um resumo. Talvez essa rapidez seja devido às pontes em branco que há entre um narrador e outro, inexistentes na narração linear. É interessante como por esse artifício eu posso deixar de citar enormes espaços de tempo capazes de ser deduzidos. Isso dá espaço a fazer digressões quando quiser, sem que necessariamente deixe o texto maçante, é como uma velocidade relativa, não-linear.

Velhas idéias

Março 23, 2008

Para começar a parte concreta desse blog, resolvi buscar algo nos mais velhos de meus cadernos. Acabei pegando o que eu usava em 2003, quando estava no terceiro ano do colégio, prestes a entrar na universidade. Por volta do começo de 2004, eu terminei meu primeiro livro de narrativa, com quatro contos, os dois primeiros com cerca de 40 páginas, o terceiro com pouco mais de 50, o último com umas 15. Pois bem, exatamente em 28/08/03 (meus cadernos de literatura são todos datados, mas os de reflexões, não), terminei o primeiro conto. Já no dia 29/08/03, estava pensando no próximo conto.

Até agora tudo o que escrevi de narrativa passou antes por longo processo prévio de reflexões escritas, considerações sobre o significado de cada cena, de cada personagem, de como deveria ser a linguagem, de seus méritos artísticos, de seus vários níveis de significado etc. Esse segundo conto de meu primeiro livro, porém, é uma exceção: eu ainda estava experimentando e queria exatamente saber como ele ficaria sem todo esse planejamento. Ainda assim, preenchi cerca de 5 páginas até perceber que faria assim. Aqui vão os primeiros trechos dessas 5 páginas.

Mais um detalhe: acabo de perceber que por diversas vezes terei vontade de comentar esses textos tão antigos. Esses comentários, os colocarei entre chaves (!), assim: {comentário}.

Reflexões – Novo Projeto

A nova idéia me parece fantástica: homens vivendo na superfície de um corpo humano. Homens comuns como os de Fernando Sabino. Faltou ainda, éclaro, toda a trama, que tem ares de possibilidades infinitas. Começarei a trabalhar agora.

O livro inicia com uma descrição minuciosa do corpo, ainda sem dizer de que se trata. Assim como nós tratamos nosso planeta e mundo como Terra, os habitantes do corpo do homem chamam-no pelo nome que tinha {bem depois decidirei que o nome será “Adão”}. Algumas regiões são explicitadas quanto ao que há nelas no momento seguinte, quando é revelado o verdadeiro significado daquela descrição. Ficam escolhidas as distâncias por tempo, no corpo, da viagem dos homens pelo corpo. Algo como uns dois dias por palmo. Os homens ficam sendo como que do tamanho de piolhos, ou menores. O corpo fica posicionado de peito para cima, a palma direita com a palma para cima, a esquerda, para baixo. Os pés eretos, como que em uma mesa, mas nunca esse ambiente externo é atingido, nem mencionado.

A trama funcionará como uma aventura, tipo Rabelais? Não exatamente, pois há a limitação da maneira de narração {um tipo de narração estranho que eu inventara para o primeiro conto e segundo o qual continuo escrevendo até hoje. Penso que o primeiro foco será o de um homem criado sem conhecer outras pessoas, mimado e alienado, que só sai de seu casulo social quando adulto, portanto um imbecil em comparação aos outros. Seus paisfizeram isso como ele por pura experiência. É um homem, portanto, único, e a finalidade de sua existência pode apenas ser descoberta pela história que será contada.

(…)

Uma personagem que me surgiu imediatamente com a idéia do corpo é a de uma bruxa, ou feiticeira, que tenta fazer um mapa correto da palma da mão, para conhecer a vida do homem em que todos vivem. Também nos cabelos viveria um povo selvagem, com antigas lendas. São os únicos que, pelos cabelos, saem do corpo do homem, embora ninguém possa contatá-los para descobrir o segredo. (…) A bruxa da palma da mão é uma remanescente dessa tribo que vivia nos cabelos.

Homens aventureiros exploram as cavidades nasais. Alguns não mais voltam. Acontece mesmo muita coisa em muitos lugares, pois é um mundo inteiro de pessoas. Há, portanto, uma infinidade de pessoas a serem descobertas pelo jovem. (…)

O experimento conhecerá um velho “erudito”, dedicado a conhecer o corpo humano muito profundamente. Esse homem erudito será o segundo foco do livro e o relacionamente entre eles será muito complexo e interessante, pois o velho erudito sentirá no Experimento justamente o que ele gostaria de ser, inocente e imbecil, fora de indagações existenciais, ao mesmo tempo em que tentará despertá-lo para o verdadeiro significado e profundidade de tudo. Não conseguirá, obviamente, porém ao decorrer do livro os dois irão crescer e mudar enormemente. (…)

Afinal, chega o momento de deixar a história fluir para o papel e ainda não sei de que me aproximarei neste novo momento. Meus instintos como que apontam a uma epopéia absurda de aventuras incríveis como Cervantes e Rabelais, mas isso talvez fosse simplista. Não será necessário voltar ao básico da teoria literária e tentar decobrir muito a fundo que tipo de história será?

E, se é para se realmente tão pretensioso e querer ser tão bom e forte, ora, se Edgar Allan Poe inventou o romance policial, autores recentes ainda puderam investar algo com o diálogo interior, e sempre haverá algo a ser inventado, não posso eu, com muito esforço intelectual, antever algo realmente novo, fora de tudo o que existe, mais do que apenas uma forma {refiro-me ao tipó diferente de narração}, cuja originalidade talvez não seja tão absoluta, porém previst, em termos, diversas vezes em livros mais modernos? E já não argumentei contra o modernismo em seu âmago? Isso não é antever? Certamente que não. Notar defeitos é mais fácil do que criar algo novo. (…)

E assim o negócio segue, cada vez mais pedante e com mais ilusão de grandeza juvenil.