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Frases do Schoenberg e tudo o mais que, depois de lê-las, não consegui deixar de escrever

Março 24, 2008

Algumas frases do Schoenberg que eu encontrei naquele caderno.

“Mas o tempo cura todas as feridas, mesmo aquelas abertas pelas harmonias dissonantes”

Acusaram-no de compôr como um intelectual. Resposta: “Eu prefiro compôr como um intelectual a fazê-lo como um imbecil”

“Se é arte, não é para as massas, e se é para as massas, não é arte”

“E estou certo de que nunca poderia ter adquirido a técnica e o poder estético que desenvolvi se tivesse dispendido qualquer espaço de tempo com política” {no contexto do livro, marcava a oposição de Schoenberg à postura de um de seus alunos, um imbecil, que dissera: “Porque a música burguesa não é – como se acredita – universal, e sim a arte de uma classe dominante”}.

“Um dia o povo ainda assobiará a música fina que fabrico” {já é madrugada; daqui a pouco vou colocar alguma coisa do Schoenberg no meu aparelho de mp3, acender um cigarro, e tentar assobiar esse negócio}

Tudo o que há de interessante em Schoenberg é como ele respondeu ao impasse estético de seu tempo. E isso não significa que a resposta seja boa, mas sim que ela é interessante, e com isso eu quero dizer que o mecanismo da reflexão que levou à resposta só pode ter algo de perene, algo que, uma vez compreendido, pode levar a avanços em outras artes. Uma das coisas estúpidas que eu fiz na minha vida foi tentar discutir esse assunto no orkut, na comunidade do Schoenberg. Foi bem na época em que as pessoas começaram a se inscrever no orkut, eu não sabia 1) que aquilo não presta para discussões, nem 2) que as comunidades em inglês estão repletas de brasileiros e não se espera que as pessoas ali discutam em inglês. Resultado: uma discussão imbecil, em inglês, com uma mulher que nem entendeu o que eu estava escrevendo. Está lá até hoje, eu tenho pena de apagar.

Mas, enfim, a idéia era que, no século XX, a ordem a da evolução das artes sofreu algumas distorções. Nietzsche escreveu que a música está sempre esteticamente atrasada em relação às outras artes, pois o ouvido demoraria mais a se acostumar com as novidades. Isso era verdade até a época dele, mas, mesmo assim, apenas no sentido da percepção estética, que segue com as dinâmicas costumeiras, mas desde Tristão e Isolda, do Wagner, a estética da música no sentido da técnica de composição deu um salto que hoje está bem compreendido na música, mas que me intriga na sua relação com as outras artes. O cromatismo de Wagner é fruto de uma compreensão lógica e matemática da limitação a que se chegou nas inovações musicais dentro do sistema tonal. O próprio cromatismo teve sua saturação na própria obra de Wagner, exigindo a resposta de Schoenberg: primeiro o atonalismo, em que o resto do século seguiu, depois o dodecafonismo, uma tentativa de colocar ordem no atonalismo. O resultado foi música muito estranha no sentido da percepção estética, mas muito interessante no sentido da estética da técnica de composição: por causa dessa rápida e fácil evolução, baseada na exploração lógica das limitações dos sistemas de harmonização de sons, a percepção estética ficou em segundo plano, simplesmente acompanhou os avanços do campo técnico: a música deixou de estar atrasada em relação às outras artes, como Nietzsche dissera, e aconteceu o oposto: esse estranho avanço estético não ocorreu, me parece, em outra arte nenhuma. Há vários exemplos que “parecem” ser a mesma coisa, por exemplo, pensei agora no Pollock, mas não acho que seja exatamente isso, e mesmo que fosse, o que mais me interessa é o que toca à literatura.

Assim, de algum modo a essência da resposta que Schoenberg deu deveria ser repetida na evolução das outras artes. No caso que me interessa, essa aplicação à literatura levaria a uma nova forma, que substituiria o romance (cuja potencialidade de inovação esgotou-se, à maneira do sistema tonal, com as obras de Proust, Joyce e Kafka, o que envolve toda uma outra argumentação). E isso porque para a prosa eu ainda tenho uma idéia ou outra, enquanto o caso da poesia me deixa totalmente intrigado (chave: Ezra Pound, principalmente). Na minha época do colégio eu tinha em meu caderno algumas páginas reservadas a “idéias para a renovação da poesia”. Jamais escrevi nada ali.

Agora vem o gancho. Há uma frase do Schoenberg que eu omiti, mas que não estava escrita no caderno e eu lembro apenas de cabeça: “Há ainda muita música a se compôr na escala de dó maior”.

E ainda outro gancho. Há muitos anos eu costumo dar menos importância ao Stravinsky porque a resposta dele a todo o impasse seria bem mais grosseira que as de Wagner e Schoenberg. Mas o que ele fez depois de toda aquela barulheira dos balés foi investir em um tipo de retorno à religiosidade na música, como um modo de criar uma síntese superior a todos os aparentes conflitos. Isso é muito, muito mais sofisticado do que a dinâmica do cromatismo ao dodecafonismo, porque investe na parte da percepção estética, que foi deixada de lado e levou a música por vezes demasiadamente intragável (nem precisaria dar exemplos, todo mundo tende mesmo a concordar nisso, mas alguns de meus exemplos favoritos dos limites do inaudível são o “Poema Sinfônico para Mil Metrônomos”, do Ligeti, o “Quarteto para Helicópteros”, do Stockhausen, e as sonatas para piano de 1 a 3, do Boulez).

Mais um gancho. Seria sacanagem terminar essa coisa toda sem citar pelo menos de passagem o Béla Bartók, que fez gato e sapato com os sistemas tonais e atonais, mas sempre a uma boa distância do inaudível, fazendo música nova, interessante e boa de ouvir fumando um cigarro.